Quando virei uma hepática

Estava eu em pronto socorro de uma maternidade pública na zona sul de Teresina Piauí, onde recebi o diagnóstico de hepatite C. Para entender melhor como tudo começou, vou contar o motivo que me fez chegar até esta maternidade. 

Hoje, aos 41 anos, já sem esperança de me ver gerar uma vida. Depois de anos sonhando, que Deus me daria a grande glória de, gerar uma vida. Mas como Deus é surpreendente, não seria difícil para Ele. Dia 31 de março de 2022, fui ao obstetra, depois de alguns dias com minha menstruação atrasada e percebendo algumas modificações em meu corpo, que antes não ocorriam. Pensei comigo, pode ser início da menor pausa, pois na minha idade, e depois de tanto tempo, não acreditava que poderia estar grávida. Mas ao chegar ao consultório e fazer o beta HCG, tenho a notícia mais maravilhosa de toda minha vida. Por mais que não acreditasse, eu estava esperando um bebê. Dentro do meu coração só havia alegria, era uma felicidade que não cabia em mim, parece que os meus problemas haviam acabado e que tudo em minha vida se transformou em alegria. Queria gritar pro mundo ouvir, ao mesmo tempo que a ficha não caía. Foram dias de esperanças e planos, parecia que tudo dali pra frente só seria de notícias boas e felicidade. Não sabendo eu, que esses dias seriam poucos. Exatamente 20 dias, isso mesmo, poucos dias de alegria.

Num domingo, extamente no dia 18 de abril, dois meses a contar da minha última menstruação, comecei a sangrar, pouco sangue, até ali, tudo normal, na minha idade isso pode ocorrer. Eu trabalhava normalmente, só não fazia grandes esforços a pedido do médico. Ao me deparar com aquele sangue, começou ali o meu martírio. Fazer de tudo para segurar o meu filho em meu ventre, mas nada do que eu fizesse seria possível. Às 5hs de terça, eu levantei com minha roupa encharcada de sangue, e ao chegar no banheiro, vi um pedaço de sangue qualhado cair no chão.  Pronto, tive a certeza que estava perdendo meu bebê, com apenas 2 meses de gestação. Quando limpei o sangue e nele vi um pedacinho de carne, do tamanho da ponta do meu dedo mindinho pensei, aqui era o meu filho(a). Não sabia nem o que estava sentindo, só  confiei em Deus naquele momento. Mas as lágrimas foram inevitáveis. Sozinha naquele amanhecer, que pra mim, parecia mais uma escuridão. O meu sol não brlhava mais, e tudo voltou ao normal, eu acordei de um sonho direto em um pesadelo.

O dia amanheceu e minha fé me fez forte, tinha que voltar ao médico para saber como estava. Para piorar, além da perda, do luto, eu teria que passar por uma curetagem, algo estranho para mim. Me vinha curiosidade e medo. Mas aos poucos fui aceitando que tudo aquilo seria para o meu bem físico, psicológico eu já nao posso dizer o mesmo. Naquele momento eu só queria que tudo acabasse bem, para que eu pudesse planejar uma nova gravidez.

No entra e sai de médicos e enfermeiros, uma colheu meu sangue e eu continuei a aguardar para o tão esperado procedimento. Antes disso acontecer, uma enfermeira que fazia muitas perguntas, mas uma vez entrou no quarto e me fez algumas perguntas, confesso que não consigo lembrar exatamente. Quando me falou que eu estava com hepatite C, "foram feitos testes rápidos e você está com hepatite C, iremos mandar fazer um exame para confirmar e tudo indica que isso foi a causa do aborto". E continuou me interrogando, queria saber como eu poderia ter sido contaminada. E eu só conseguia pensar no bebê que eu perdi. Pra mim, hepatite C era tipo uma sífilis ou outra doença, que qualquer ginecologista prescrevia a medicação e eu comprava na farmácia do bairro.

Mas vamos lá. 

Tive alta, correu tudo bem, não senti nada. Graças à Deus acabou tudo bem. Só que antes mesmo de sair da maternidade, eu tive que voltar à vida real, vendo mamães com seus bebês na enfermaria, para todos os lados que eu olhava, recebendo mensagens no celular me avisando que invadiram o apartamento para onde me mudaria,  no qual fiz planos para o quartinho do bebê. Mas a vida real é cruel, não respeita, nem mesmo, uma mãe enlutada. 

Após esse turbilhão de coisas, voltei para casa da minha mãe, onde estava durante o ocorrido. Ali pude dar um pequeno repouso e começar minha segunda fase: A fase de pesquisa sobre hepatite C. O pouco que me disseram foi: "Procure um infectologista". Como não tenho plano de saúde e nas minhas pesquisas eu descobri que o tratamento é oferecido pelo SUS, imaginei logo, preciso ir a UBS para pedir um encaminhamento para o tratamento. Bom, foi isso que fiz!

A partir deste dia eu fui viver o meu luto e esperar o tão demorado SUS, mas que sem ele seria pior. Essa segunda parte de pesquisas e consultas, só está começando e vou compartilhar nos próximos capítulos dessa história, que sei como começou, mas não sei como irá terminar.

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